quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Morte a crédito

O escritor Celine combateu na Grande Guerra e tornar-se-ia um anti-bolchevique e anti-semita fanático a ponto de assustar até os ocupantes alemães.

O responsável máximo pela propaganda ocupacionista em França, Bernard Payr, terá relatado aos seus superiores que: "partindo de um ponto de vista racial correcto, Celine terá evoluido para uma forma obscena de antagonismo primário". Ainda estávamos portanto longe dos campos de extremínio e Payr talvéz fosse um pouco naïf .

Hitler também combateu na França e na Bélgica, como soldado-mensageiro, função particularmente perigosa que terá cumprido de forma exemplar, não tendo contudo chegado sequer ao posto de cabo, provavelmente um reflexo da mentalidade aristocrática prussiana.

Após a derrota alemã, Hitler, sempre um mero subalterno, foi doutrinado pelo chamado "pensamento nacional" ministrado pelo departamento de educação e propaganda da Reichswehr Bávara. Esta doutrina procurava sobretudo um bode expiatório para a derrota alemã na guerra e para a humilhação do tratado de Versalhes. O bode expiatório encontrado foram os judeus, não sem alguma culpa por parte de alguns capitalistas judeus que se aproveitaram, de forma escandalosa das recessões económicas na Alemanha e nos restos do império Austro-Húngaro.

Celine, por sua vez, já era sargento quando a guerra eclodiu.
Também foi mensageiro, mas a sua guerra teve um breve curso. Ferido com alguma gravidade numa missão, acabou por ser declarado fisicamente inapto e passou à disponibilidade. No regresso da guerra encontrou uma França devastada e arruinada. Trabalharia inicialmente para a fundação Rockefeller, na divulgação da profilaxia da tuberculose. Talvez como corolário dessa actividade acabou por tirar o curso de medicina exercendo numa maternidade de Paris ao serviço das classes menos favorecidas.
Ou porque a França também precisava dos seus bodes expiatórios, ou porque a ameaça bolchevique abriria as portas às doutrinas bávaras, a verdade é que também Celine depressa abraçou o anti-semitismo.

Perguntam talvez, que diabo tem Celine a ver com Hitler? Já respondí! Eram ambos anti-semitas fanáticos, a ponto de fazerem corar o próprio Bin Laden.

A preplexidade é apenas um efeito colateral de presupostos adquiridos, já que Hitler e Celine foram ambos produtos de tempos de grande sofrimento e perda total de esperança.

A diferença é que um foi um escritor de sucesso e teve oportunidade de destilar o seu veneno de forma eficaz e indelével, Hitler ainda tentou a arte como veículo, mas a pintura não era o seu forte.
Poderiamos agora tecer grandes conclusões sobre a importância das artes para a história da humanidade, mas em resumo: um acabou artista, frustado com a profissão de salvar vidas, o outro, artista frustado, foi um profissional a acabar com elas!

Na realidade, Hitler e Celine não tinham razão. Criam-se disputas estéreis sempre que se polarizam discussões em torno da culpa. É uma miséria humana! Ninguém tem a posse da razão e nenhum dos lados parece ter consciência disso.
Os Judeus serão culpados de muita coisa, mas não são o demónio. São apenas o bombo da festa, sempre a jeito, em parte por culpa própria, para servirem de cordeiro sacrificial.

São, passe a metáfora, o pilha-galinhas da terra. Algém rouba o banco e toda a gente aponta o dedo ao judeu. Mas, quando muito são uns cúmplices menores. Comem os ossos, como pilha-galinhas que são.

A culpa, que os patriotas alemães e franceses atribuiram aos judeus, foi afinal e acima de tudo dos seus próprios governos. Fruto da cobiça imperial, do desentendimento obstinado, virtude de um nacionalismo mal orientado e de muitas outras doenças cancerígenas da velha Europa.

Infelizmente as neoplasias não se curam, apenas se prolongam. Hoje a Europa enfrenta de novo e sem guerra, uma espécie de rescaldo bélico: recessão, desemprego, perda de importância, etc..

A medicina entretanto evoluiu, há quimioterapias, radioterapias, cirurgias e amputações. Boas notícias para o povo europeu portanto!
E a questão da culpa?
De quem é a culpa? É dos judeus de novo? Já não estão disponíveis para o sacrificio e por uma vez, será melhor encontrar os verdadeiros culpados.
E esses são os governos que conduziram os seus estados à ruína!
Foram eles que criaram um Euro como símbolo de uma união que hoje se vê que nunca existiu nem existirá. Poderiam ter escolhido outra coisa, tinha que ser a moeda!
Foram eles, os governos, que negociaram de manhã os tratados de que à tarde se serviram em proveito próprio. E foram ainda eles que desrespeitaram as directivas que outros tiveram que seguir à risca. Cobiça, desentendimento e nacionalismo primário. Outra vez!

E o Euro?
Bom o Euro não acabou porque num naufrágio ninguém deita fora as boias de salvamento, mesmo que sejam feitas de cortiça e estejam podres. Mas quando a tempestade passar...


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